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A glória de Deus e a glória dos reis

Luis Fernando Verissimo

A glória de Deus é ocultar, a glória dos reis é descobrir, disse, mais ou menos, Salomão ("Provérbios" 25:2). Muitos séculos depois, o inglês Sir Francis Bacon, um dos primeiros reis da ciência, deu um conselho curioso aos que estudavam a Natureza: deveriam suspeitar de tudo que suas mentes adotassem com muita satisfação. Talvez uma maneira de prevenir contra a ilusão de que qualquer descoberta humana fosse completa, ou tivesse completamente desvendado o que Deus encobrira. No momento (século 17) em que crescia a idéia quase herética de que existia um Livro da Natureza tão cheio de mensagens cifradas de Deus para os homens quanto o Livro dos Livros, Bacon aconselhava a Ciência a não desprezar o que diziam os mitos e as Escrituras. A glória de Deus se manifestava de várias formas, Alguma eram apenas mais poéticas do que as outras.

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Num livro chamado Labyrinth, subintitulado Uma Busca pelo Significado Escondido da Ciência, o autor americano Peter Pesic (professor de música, diplomado em Física, não sei muito mais sobre ele) escreve que a primeira "mensagem" assim identificada do Livro secular da Natureza foi o magnetismo, que os gregos e romanos já conheciam e os chineses já usavam na navegação mas que só começou a ser estudado a fundo pelo inglês William Gilbert, contemporâneo de Francis Bacon na corte da rainha Elizabeth I, de quem era médico. O magnetismo era a prototípica evidência de uma força invisível na Natureza, a primeira alternativa à pura vontade de Deus como algo por trás de tudo. Gilbert, que chamava a força magnética de “alma” da Terra, deduziu que todo o planeta era uma pedra magnética e que os imãs eram filhos da terra, com quem ela compartilhou seu poder. E recorreu a linguagem poética, no caso erótica, para descrever a origem conjunta do ferro e da sua misteriosa propriedade, no ventre profundo do globo, igual a “o sangue e o sêmen na geração dos animais”.

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Na linguagem poética dos mitos o poder da Mãe Terra sobre o destino dos homens é anterior às descobertas de Gilbert. São muitas as forças femininas que norteiam a vida dos homens e os atraem para a ruína ou o conhecimento ou o sucesso, ou tentam. Desde Eva, culpada por termos trocado o paraíso eterno pelo saber, o sexo e a morte, passando pela Esfinge com suas charadas didáticas e por todas as musas inspiradoras e sereias tentadoras e ninfas sedutoras, e todas as gerações e gerações de companheiras de fé ou desencaminhadoras fatais que nos mantiveram no rumo ou nos desviaram dele (até a Margaret Thatcher, que era literalmente de ferro) são todas filhas da grande mãe magnética, nos guiando pelo mundo.

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Albert Einstein contava que o presente de uma bússola, quando era menino, lhe dera a primeira sensação desta força misteriosa por trás de tudo, e o primeiro ímpeto de desvendá-la. Mais do que ninguém, Einstein podia reivindicar uma glória de descobrir igual à glória de Deus em ocultar, mas ele nunca abandonou sua devoção quase religiosa a um determinismo harmônico do Universo, cedendo a Deus ou a que outro nome se quisesse dar ao indesvendável, esse último mistério, só alcançável pela metáfora. Mas Einstein não seguiu o conselho de Francis Bacon, de desconfiar do que o satisfazia. Satisfez-se tanto com suas certezas que passou os últimos anos da vida buscando uma teoria unificada da gravidade e do eletromagnetismo que refutasse a teoria quântica que as ameaçava, e tornava a matéria e seu comportamento inexplicáveis em qualquer linguagem, científica ou poética. Pois aceitá-la seria aceitar um Universo regido pelo acaso, ou pela estupidez. Ou tornado absolutamente obscuro por um Deus cioso da sua glória.


Domingo, 14 de setembro de 2003.



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